Quem sou eu

Minha foto
São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando desde as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP, voltarei a doular a partir de setembro 2012. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 9794-3566

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Mariana, Rodrigo e Manuela – agosto de 2010


Conheci este casal nos encontros do Grupo de Apoio ao Parto Natural. Sempre sorridentes e participativos, absorviam as informações, cada vez mais encantados com a possibilidade de trazer a filha para o lado de cá da barriga sem ter que recorrer a técnicas invasivas.

Participaram de uma oficina de parto, e como sempre,  toquei aquela música que tem uma mudança de ritmo muito forte e depois recupera a cadência mais tranquila. É uma música de quase dez minutos.


Mariana não aguentou e perguntou:
- “Mas essa música tem fim?!”
Respondi:
- Não parece mesmo que nunca mais vai acabar?! Mas acaba... uma hora ela acaba. Igualzinho a gestação que às vezes temos a impressão que nunca mais vai acabar... e igualzinho o TP... mas uma hora nasce. É preciso ter paciência e confiança infinitas. Um dia você entra mesmo em TP, e chega a hora em que o bebê estará nos seus braços.

Fui à casa deles algumas vezes, nas reuniões de preparação para o parto. Eles tinham frequentado as reuniões do GAPN e não tinham muitas dúvidas. Lembro bem do Rodrigo pedindo a palavra quando foram a uma reunião do GAPN, Mariana já com mais de 40 semanas. Ele falou sobre a oficina de parto, recomendando que todos que pudessem não perdessem essa oportunidade de fazer uma revisão de todo o processo do parto porque são muitos detalhes que podem fazer uma grande diferença.

Estando com mais de 40 semanas a família da Mariana começou a ficar muito preocupada. Seu pai é médico, e mais alguns membros da família também são. Em uma tentativa de acalmar aqueles que estavam perdendo o sono de tanta preocupação, Mariana e Rodrigo aceitaram submeter-se a exames sem indicação real, o que significa dizer: está tudo bem, não temos nenhum sinal de problemas, mas vamos fazer uns exames só para comprovar que está tudo bem mesmo. Acontece que só o fato de sair de casa, entrar em uma clinica ou em um hospital, ficar esperando, escutar histórias enquanto esperam, responder perguntas inadequadas, ter a expectativa de receber o resultado... isso tudo já começa a minar a confiança de qualquer cristão! 

Exames demais para comprovar o bem estar fetal, que a rigor poderia ser observado pela motilidade fetal. (Se o bebê continua se mexendo bastante então está tudo bem). Talvez um exame para dar uma olhada na placenta e no líquido, se passar de 41 semanas, dependendo do médico... mas uma recomendação que sempre poderia ser feita é: NÃO estimar o peso do feto. Precisamos saber SÓ sobre a saúde da placenta, do líquido e do feto. Se ele está com 3 ou com 4 kilos não é uma informação importante. Bebês de 4 kilos nascem com mais facilidade quando a mãe(e o médico) não sabem... heheheh.

A mãe de Mariana chegou para aguardar o nascimento da neta. Instalou-se na casa deles. Para qualquer pessoa a chegada de uma mãe amorosa e querida é uma alegria. O casal me disse mais de uma vez que ela era muito tranquila, sua presença durante o TP não seria problema, e se chegassem ao ponto de precisar pedir licença acreditavam que ela não se ofenderia. Completavam a descrição dela com a observação de que como eu, ela também é psicóloga.
Um dia Dra Carla me ligou e perguntou se eu não estava sentindo a Mariana muito ansiosa. Talvez fosse bom conversar com o casal, ver como estavam encarando a espera além das 40 semanas. Eu sempre reluto em ligar para saber se está tudo bem. O contrato já foi feito, eu já fui à casa deles várias vezes, pedi que me ligassem sempre que sentissem necessidade, nem que fosse para tirar uma dúvida às 2 da madrugada... se começo a ligar para saber se está tudo bem quem está ansiosa sou eu! Fico me sentindo mais uma entre todas as pessoas que ligam para perguntar se esse nenê nasce ou não nasce! Mas, tendo uma indicação da médica de que havia certa tensão no ar... eu liguei. Conversamos duas vezes ao telefone, e fui até a casa deles numa passadinha bem rápida, achei que estavam tranquilos. No entanto, eles contaram que os últimos dias tinham sido mesmo muito tensos, com a família de cabelos em pé, muitos exames desnecessários, terminando com uma grande crise de choro... e depois disso parecia que os ânimos finalmente tinham se acalmado. Alguém percebeu que ao invés de ajudar estava atrapalhando. Mariana teve uma conversa com a mãe dela e esclareceu as coisas: você veio para me ajudar e não para me vigiar nem para ficar passando resultados de exames para a junta médica familiar dar o seu parecer... então, com os pingos bem colocados nos seus devidos is, Mariana relaxou, e entrou em TP na mesma noite.


Rodrigo ligou perto das 4 da manhã dizendo que ela tinha passado a madrugada com contrações e agora estavam ficando mais próximas e mais fortes. Cheguei muito rápido porque tanto eu quanto eles moramos perto de uma avenida marginal. O casal estava na suíte, a mãe dela dormindo em outro quarto, fizemos o possível para não acordá-la. Mariana estava bem ajeitada, de joelhos e debruçada sobre a bola suíça, descansando e movendo os quadris para relaxar. Pelo quarto eu vi caixinhas de suco e potinhos com castanhas, xícaras de chá... a madrugada tinha sido agitada. 

Providenciei a bolsa de água de quente e enquanto estava na cozinha a mãe dela apareceu. Fiz o possível para estabelecer um clima de festa! (Hoje é dia de bebezinho novo na família, que dia feliz!). Mas minhas tentativas não foram correspondidas e logo a conversa girava em torno dos exames serem necessários, confiáveis, etc... Uma mesa de café da manhã foi colocada, fomos chamados para o desjejum. Mariana disse que não estava com fome e queria tomar um banho. As contrações ainda não estavam muito próximas, o nascimento não era eminente, não vi problemas em deixá-la banhar-se sem platéia. Errei feio. 

Enquanto estávamos à mesa, ela no banho, eu a vi abrindo a janela do banheiro... mas estava envolvida em uma conversa sobre a falta de confiança que os médicos em geral sentem na capacidade da mulher em parir... Rodrigo levantou-se da mesa e foi dar uma olhada na Mariana. Ela estava quase desmaiando. Dia quente, chuveiro quente, contração forte, medo... a pressão caiu. Daí pra frente não arredei o pé de perto dela.

Logo ela começou a sentir o cansaço da noite mal dormida, falava da tensão dos últimos dias, e o casal falou também da tensão que sentiram na equipe: eu e Dra Carla. Era como se estivessem em um beco sem saída, pois se aceitassem a pressão da família e pedissem a cesárea, sentiam que a solicitação não seria bem recebida por nós duas, no que estavam cobertos de razão. Nós sempre vamos conversar e tentar ajudar a superar a tensão da reta final. Não me imagino nem em um milhão de anos aceitando um pedido de cesárea assim, simplesmente, e de consciência tranquila. O casal cogitou ligar direto para outro médico e solicitar a cesárea, mas também sabiam que não seria tranquilo. Nesse meio tempo Mariana teve aquela crise de choro, a família recuou um pouco, alguém ligou e disse que a rigor não havia problema em esperar mais um pouco já que os exames estavam todos com resultados normais...

Aí as contrações começaram, eles tiveram fé de que nasceria logo. 

Mas o dia estava amanhecendo, Mariana quase desmaiou no chuveiro e daí pra frente ela mal conseguiu recuperar a calma. As lágrimas começaram a escorrer e a frase veio:
- “Eu não aguento mais”.

Após conversar um pouco e me certificar de que ela tinha atingido uma situação limite, liguei para a Dra Carla e disse que Mariana havia passado a noite com contrações, que estavam agora com intervalo de 3 a 4 minutos, mas ela agora estava solicitando a cesárea. Realizar a cirurgia em uma mulher que está em TP é bem diferente de tirar um bebê que não sentiu nenhuma contração sobre seu corpinho: o risco de prematuridade iatrogênica (provocada pelo médico) diminui drasticamente. Diante disto e também do histórico de ansiedade na última semana a solicitação do casal foi aceita e então fomos para a maternidade.

Chegando lá, eu e Mariana entramos e ficamos aguardando a enfermeira, o Rodrigo ficou fazendo a internação. O movimento no corredor estava bem baixo, ficamos quase sozinhas. As lágrimas começaram  novamente a correr, Mariana me abraçou e disse:
- “Vânia, da próxima vez eu vou fazer tudo diferente, mas agora eu não aguento mais, você não faz idéia do inferno que foram os últimos dias...”.

Quase chorei junto. Eu sabia o quanto ela havia se preparado e o nível de pressão que sofreram para ela chegar a este ponto de exaustão. E o pensamento inevitável que começa a rondar os casais que sofrem esse tipo de estresse: “e se acontecer alguma coisa e nós tivermos que escutar o resto da vida que nós fomos avisados”?

Tenho um livro maravilhoso que me foi dado de presente pela Dra Carla: Birthing from within. Há um capítulo que fala sobre o medo, e a autora diz que até um quadro com a figura de um tigre em posição de ataque é capaz de provocar uma certa descarga de adrenalina. E esse assunto sempre volta à pauta das reuniões do grupo de apoio ao parto: o medo contamina com muito mais facilidade do que a coragem. É essencial que as pessoas presentes no parto sejam confiantes. Se tiver uma com medo ela pode contaminar o grupo todo. E a confiança que Mariana e Rodrigo sentiam finalmente tinha sido vencida.



Enquanto ficamos no quarto aguardando que viessem prepará-la para a cesárea ela começou a sentir muito calor, e a pressão foi até aferida algumas vezes seguidas porque de repente ela ficava até vermelha e pedia socorro com o olhar. Eu pegava o que estivesse por perto para abaná-la e teve uma hora que pedi até a prancheta da enfermeira!  Com as contrações um pouco mais próximas, Mariana aceitou ir caminhando ao lado da maca até o centro cirúrgico porque deitada a sensação dolorosa seria maior. Quando saímos do quarto ela teve uma contração muito forte bem na frente de uma pequena plateia que aguardava o inicio do atendimento do ambulatório de alto risco. Enquanto eu fazia massagem nela observava as expressões de espanto... a dor do parto quase sempre é vista como se fosse um grande sofrimento e totalmente desnecessário. Fiquei pensando que um grande cartaz com a lista de todos os riscos de fazer uma cesárea fora de trabalho de parto deveria ser afixada nos corredores das maternidades e dos ambulatórios de pré-natal nos postos de saúde. Que tal avisar que não há um exame capaz de detectar maturidade neuronal e que fazer uma cesárea só porque um exame disse que os pulmões já estão maduros aumenta a probabilidade de ter um filho com problemas para mamar, e com hiperatividade e déficit de atenção? Não seria bom que as futuras mamães soubessem disso?

Ainda acompanhei o Rodrigo até o balcão da maternidade para pegar a ficha de autorização para acompanhar a cesárea. Fiquei na maternidade até que ela viesse para o quarto e tendo me certificado que estava tudo dentro do esperado fui embora de consciência tranquila. O casal sentiu-se bem atendido afinal. 

Voltando: a próxima lembrança vívida que tenho é da Mariana voltando ao GAPN, meses depois, com sua pequena Manuela nos braços, e começou seu depoimento dizendo algo assim:

- “Eu sou professora e sempre incentivo meus alunos a terem uma visão crítica sobre os assuntos desenvolvidos... hoje eu vim contar o que eu aprendi durante a minha gestação e parto que virou cesárea. Espero que a minha experiência possa servir de exemplo para que vocês tenham a chance de repensar estratégias antes que seja tarde... eu nunca quis cesárea...”.


__________________________________

Oi Vânia,
Que bom que está gostando da nova vida. Ficamos felizes por você. 
Por aqui está tudo bem, a Manuela é uma graça ! Eu e o Rodrigo estamos encantados e muito felizes. Ela está andando por tudo, não para um minuto. 
Fique à vontade para publicar o relato. Só peço a gentileza de não publicar foto.

um grande abraço
Mariana
01/11/2011

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Karen e Jr – nascimento da Sofia - 03/08/2010

Karen conheceu meu trabalho no grupo de apoio ao parto natural, que começou a frequentar logo no início da gestação. 

Quando me contratou deixou claro que tinha mais dúvidas em relação aos cuidados com o recém-nascido, então conversamos bastante sobre isso, mas como sempre, assistimos aos vídeos sobre parto e ela sempre esteve muito tranquila em relação a isso. Sendo veterinária e acupunturista, ela tinha uma visão do parto já bastante esclarecida. Quem tem confiança na mãe natureza geralmente tem confiança na própria natureza também.

Preocupava-me o número reduzido de vezes que eu via o Jr participando dos encontros do GAPN e dos nossos encontros na cada deles, mas ele a acompanhou na oficina de parto e também tivemos o cuidado de marcar a confecção do plano de parto para o período da noite, e assim, quando ela completou 38 semanas eu já estava confiante na participação ativa dele.

Karen entrou em TP quando estava com 40 semanas e 6 dias. Ela me ligou às 14h30, eu estava prontinha para sair de casa, então só precisei desmarcar o compromisso e pegar a mochila de doulagem. Cheguei à casa dela em quinze minutos. Ela mesma abriu a porta, me recebeu muito tranquila, sorridente. Logo dispensou a empregada, e ficamos sózinhas. Subimos para o quarto e quando vinham as contrações ela se apoiava na parede e balançava os quadris. Daí a pouco eu já providenciei a bolsa de água quente.

O Jr estava trabalhando e pediu que eu confirmasse que era mesmo trabalho de parto antes dele vir. Em meia hora, mais ou menos, eu já liguei pra ele e pedi que viesse para casa, pois as contrações já estavam ficando bem próximas e os pais também precisam de tempo para adaptarem-se à frequência das contrações. Sempre penso que um erro enorme que algumas maternidades cometem é que depois de manterem os pais afastados durante o TP os deixam entrar quando a criança está quase nascendo. Aí eles chegam quando a mulher já está fazendo força, contrações longas... para quem nunca viu pode ser um quadro assustador e é daí que alguns pais acabam desmaiando na sala de parto. É necessário que os pais que querem estar presentes o façam desde o início do TP.

Rapidamente ele chegou em casa, e passou a participar, amparando-a durante as contrações, fazendo massagem, ficando junto quando ela entrou no chuveiro. Karen vomitou várias vezes, e a preocupação de que ela começasse a sentir-se fraca começou a me rondar. É difícil ficar insistindo que elas comam alguma coisa quando começam a ficar muito nauseadas. No entanto, a Karen não teve essa dificuldade. Ela continuou tomando água aos goles, comeu alguns pedaços de banana, tomou um suquinho.
Às quinze e trinta a bolsa rompeu e ela me chamou para ver o líquido. Estava verde, mas achei que estava bem diluído e não me preocupei. Deixei passar algumas contrações antes de ligar para a Dra Carla contando o que estava acontecendo. Ainda ficamos em casa por mais uma hora. Só quando as contrações firmaram de dois em dois minutos é que fomos para a maternidade. Marquei 16h22 16h25 16h27 16h29 16h31 16h33 Aí começamos a colocar as malas no carro e fomos com bastante calma para a maternidade. 

A dilatação ainda não estaria muito avançada, mas com a presença do mecônio a Dra. Carla queria que os batimentos cardíacos da bebê começassem a ser monitorados com maior frequência, e assim foi feito.

Na internação não foi feito o exame de toque. A presença do mecônio o torna mais desaconselhável ainda. 

Fomos instalados no quarto maior, com o maior banheiro, que fica no meio do corredor. Logo inflei a banheira e a coloquei para encher. Às 17h50 foi feito o primeiro toque, que constatou 9 cm de dilatação. Em seguida ela entrou na banheira e ficou lá durante um bom tempo. Eu coloquei um pedaço de mangueira grossa drenando a água da banheira para o ralo, e o chuveiro ficou aberto, de modo que a água era renovada o tempo todo. Mesmo assim pudemos observar que a água ficava cada vez mais verde.

Karen não se abalou, estava na partolândia, muito tranquila, e mantínhamos a confiança de que tudo se encaminharia bem. Os batimentos cardíacos da bebê não tiveram qualquer alteração importante, mantendo-se sempre dentro do esperado. A dilatação se completou e continuamos esperando.

Três horas depois mais um exame de toque, no qual a médica chegou a pensar que a bebê tinha virado e estava sentada. Já havia essa suspeita porque a ausculta era feita acima do umbigo. (Uma das formas de sabermos que o bebê está descendo no canal de parto: se de tempos em tempos o coração está mais baixo, isso só pode significar que o bebê está mais baixo. Bem no finalzinho do expulsivo o coração do bebê está na altura da linha dos pelos pubianos, o que indica que a cabecinha logo vai começar a aparecer lá embaixo). 

Então... se o coração da Sofia estava acima do umbigo da Karen, ou estava muito alta ou tinha se virado e agora estava sentada. E foi exatamente isso que pareceu quando ao tentar tocar a cabecinha da bebê, Dra. Carla encontrou uma estrutura macia. Mas ao continuar tocando para se certificar, Dra Carla percebeu que não, a bebê estava mesmo era muito alta e a estrutura macia era a bossa que estava se formando. Então fizeram um acordo de esperar mais um pouco, e quando a Karen sentisse que havia algo diferente ou quando não aguentasse mais, fariam outro toque e tomariam uma decisão.

Era 21h15. Saí um pouquinho e fui quase correndo até a padaria comer alguma coisa e tomar um suco. Tudo que eles não precisavam era de uma doula desmaiando de fome... o casal estava tão sintonizado e unido que mal perceberam a minha falta. Cheguei de volta e encontrei o Jr apoiando a cabeça da Karen na beirada da banheira, exatamente como estavam quando eu sai. E ainda demorou um pouco até ela chamar a Dra Carla. O resultado do toque continuou igual, e decidiram-se pela cesárea. 

Quando estavam reunindo a equipe, Dra Carla ligou pessoalmente para o anestesista de plantão e explicou que era um trabalho de parto natural que não tinha evoluído, mais de 3 horas de dilatação completa... de repente ela parou de falar, olhou em volta com cara de espanto e disse:

- “Ele desligou na minha cara! E agora?”

E a enfermeira respondeu:

- “Então ele vem. Quando não vem ele logo deixa bem claro, falando um monte de palavrões e completando com um “se vira!”.

Com isso o clima deu uma desanuviada pois quase todo mundo começou a rir... mas me diz se não era uma situação para chorar?

O Jr não quis entrar para acompanhar a cirurgia e entrei devidamente acompanhada da máquina fotográfica para registrar os primeiros momentos da Sofia neste nosso lindo mundo. Mas como já tinha visto o nível de profissionalismo do anestesista, nem cogitei a hipótese de ficar ao lado dela. Uma das berçaristas me avisou: “se ele ver você aí, vai te colocar pra fora aos berros”.

Logo a Sofia estava do lado de cá da barriga, e fui acompanhar o primeiro atendimento da pediatra. Fiquei o tempo todo me escondendo do anestesista, passando abaixada diante da janelinha das portas, e consegui tirar várias fotos. E estava ao lado da bebê segurando a mãozinha dela quando ele passou no corredor, já de saída, e eu quase me joguei no chão! 

Tragicômico! Pensar que a lei do acompanhante já tinha mais de 5 anos!

Depois dele sair eu fui ficar com a Karen. Assim que cheguei e dei um beijo nela, ela disse:

- “Jamais passou pela minha cabeça que eu precisaria de uma cirurgia... o anestesista foi tão grosso! Eles não conseguem esperar a contração passar para fazer os procedimentos! A enfermagem também, nossa... a sondagem doeu muito”!


Fiquei ali com ela, consolando, conversando...

A essa altura eu já tinha ligado para o Jr e avisado que tinha nascido, estava tudo bem, tinha dado tudo certo (do ponto de vista físico), etc... lidar com a dor emocional da cirurgia e do atendimento frio dentro do centro obstétrico é outra coisa... Quando Karen foi levada para o quarto o Jr já tinha ido correndo até em casa, tomado um banho, comido alguma coisa... de modo que estava pronto para passar a noite com elas.

Cheguei em casa perto da meia noite. A tranquilidade de que tudo que podia ser feito foi feito dá lugar a um sono tranquilo. Mas com certeza seria mais tranquilo se ela tivesse sido bem tratada dentro do centro cirúrgico.

Quando fui visitá-la ela estava bem, andando já sem muita dor no corte, e a amamentação estava tranquila. 

Estavam naquela fase de achar que a bebê nunca mais vai parar de mamar, porque como os recém-nascidos se cansam logo e o leite materno tem a absorção muito rápida, a impressão que a gente tem é que acabaram e mamar e já querem de novo. Já que essa também é uma fase importantíssima do desenvolvimento emocional do bebê, o melhor que se faz é dar o peito toda vez que o bebê quiser. Isso, na minha opinião, é livre demanda: se a demanda é fome, sede, ou necessidade de estar junto, não importa. Se a mulher percebe claramente que o bebê está “xupeitando” então pode tentar tirar o peito mas ficar com o bebê no colo mais um pouco, sem tentar colocar no berço, carrinho ou bebê conforto imediatamente. Senão o resultado é sempre o mesmo: choro que sinaliza: “não quero ficar sozinho”.

Karen estava fazendo tudo direitinho! E como a confiança de que a cesárea foi bem indicada era certa, ficamos vendo fotos e curtindo a bebê. Linda!

Karen, parabéns pela confiança, perseverança e sabedoria. Sua tranquilidade foi fundamental para que a Sofia pudesse receber as ondas do hormônio do amor durante várias horas antes de ser nascida.
Jr, parabéns pela presença e companheirismo.
Sofia, seja sempre bem vinda! Muita saúde, sempre!
Beijos,
Vânia Doula.

sábado, 17 de setembro de 2011

Valéria, Sandro e Isabela - julho de 2010

Valéria foi a última adoulada que eu acompanhei desde o comecinho da gestação. Na primeira vez que fui à casa dela a barriga nem bem tinha aparecido. Mas desde o primeiro contato telefônico ela tinha deixado claro que tinha algumas dúvidas e queria estar muito bem preparada. Queria que esta história fosse bem diferente do seu primeiro parto, quando todos os que estavam presentes tinham levado um grande susto quando o bebê nasceu bem molinho e demorou muito a corar e chorar. Graças à rapidez e experiência da pediatra que haviam chamado tudo terminou muito bem, mas nunca tinham perdido a impressão de que poderia ter acabado muito mal.

Então fizemos toda a preparação com bastante cuidado.

Valéria deixou claro que não queria cesárea a não ser que fosse realmente necessária. Opinião compartilhada pela maioria das brasileiras. Uma pena que a maioria ainda é enganada e marca cesárea por causa do cordão enrolado do pescoço do bebê... ou porquê após os 32 anos a mulher já é primípara idosa... ou outras tantas  besteiras deste tipo... Mas ela também não queria nem ouvir falar de anestesia, e deixou claro que detesta agulhas. Eu acho ótimo quando isso acontece!

Eu e Valéria passamos diversos fins de tarde conversando bastante e  Sandro foi também a duas ou três reuniões pra estar bem inteirado do que poderia acontecer no dia do parto. Tenho lembranças vívidas da noite em que fizemos a reunião para escrever o plano de parto. Sandro fez um organograma do TP com setinhas indicando o que fariam caso a bolsa rompesse antes do início das contrações, ou depois do início das contrações, qual o intervalo esperado para as contrações, à partir de que ponto poderíamos considerar um sangramento como normal, etc... lembro de ter pensado: “cacetada, que cara organizado”! Rsrsrsr No entanto fiquei muito preocupada sobre como o fator surpresa poderia se encaixar neste organograma tão detalhado... E se acontecesse alguma coisa que eu não mencionei, ele pegaria o papel e diria que eu não o preveni sobre essa possibilidade?

Boooom... vamos torcer para não termos nenhuma grande surpresa certo?

 ERRADO! Teve uma grande surpresa! Mas... vamos por partes!

Tudo preparado, malas feitas, mais de 38 semanas, entramos na fase de espera. E nesse ponto uma conhecida da Valéria, adoulada minha também, a Tânia, teve uma cesárea quando estava com pouco mais de 41 semanas. Valéria tinha a experiência do primeiro parto ter sido induzido, e esta possibilidade passou a rondá-la. (A dúvida que ela teve era assim: para que esperar até mais de 41 semanas para depois ter um problema e acabar em cesárea, como aconteceu com a Tânia? Será que não é melhor induzir logo e garantir?) Conversou muito sobre isso com o médico e decidiram esperar pelo menos até 40 semanas, para só depois pensar em outras possibilidades. Ela completaria 40 s no dia 26/07, que chegou... e passou... na consulta então decidiram que esperariam até o próximo sábado, quando avaliariam se a indução seria viável. O médico na época disse algo como: “se o colo estiver grosso, duro, sem nenhuma dilatação, então não vamos induzir. É preciso que o corpo mostre um mínimo de prontidão para receber a indução”.

Quando Valéria me ligou, na sexta-feira, para contar que haviam se decidido pela indução no dia seguinte,  caso os sinais de prontidão estivessem presentes... eu disse que queria conversar. Ela me respondeu assim: “pode ser às duas? Não... melhor as três... éééééé... pode ser três e meia, lá em casa?”.

Depois, perto das duas e meia ela me ligou: “Vânia, não vai dar tempo, eu ainda tenho que ir no banco... posso te pegar na sua casa quando eu terminar”?

Pode!

Apareceu perto das  4 e meia e fomos para a casa dela. No caminho ela foi me contanto tudo que tinha feito durante o dia, os problemas com o banco, e tudo que ela tinha que deixar organizado na empresa porque o bebê poderia nascer no dia seguinte. Quando chegamos na casa dela ela preparou um lanche, disse que tinha almoçado correndo, e enquanto isso fomos conversando... e eu pensando: como pode uma gestante de 9 meses ter uma vida tensa como essa e entrar em TP? Ela é uma empresária e prá ela faz sentido que o parto seja no fim-de-semana... ela vai estar mais relaxada sem estar pensando nos problemas da empresa e na funcionária que ela não teve tempo de treinar para ficar no seu lugar... Daí que eu fiquei com pena! Pronto, fiquei mesmo! Pensei: quem sou eu para dizer faça ou não faça isso?

Ela tinha dúvidas, e disse que se o médico, durante os exames, achasse que ainda não era hora, então ela voltaria para casa. Assim ficamos combinadas, e fui para a minha casa. Como sempre, pedi que me chamasse quando a indução começasse a pegar e as contrações começassem a ficar mais fortes e próximas.

O sábado amanheceu e logo recebi uma ligação de que iam mesmo induzir o parto, pois os exames tiveram resultados favoráveis. Outra ligação perto das onze da manhã, na qual ela me disse que a indução havia começado há meia hora e as contrações já estavam de 3 em 3 minutos e durando 40 segundos. E completou assim: “não precisa vir ainda, na hora que piorar eu te chamo”.

Então fiquei com tudo pronto, e perto das 2 da tarde ela me ligou e pediu que eu fosse até lá. Meu marido me levou de moto. Eu tinha uma mochila enorme, contendo até uma banheira inflável, e na moto eu ficava me sentindo uma tartaruga levando a casa nas costas! Lá fui eu, a doula tartaruga, para o parto da mulher guepardo! (Pensa numa mulher que é uma fera, e num expulsivo rápido!)

Cheguei, eles estavam andando no corredor. Uma cena linda de marido apoiando esposa em TP. Nunca vou deixar de ter orgulho por ter ajudado a favorecer esta cena! Que Deus me conserve briguenta para as brigas que valem a pena, amém!

Estavam instalados no apartamento da esquina, bem em frente ao postinho da enfermagem, e a enfermeira estava chamando para fazer a ausculta dos batimentos cardíacos da bebê. Estava tudo bem. 

Valéria disse que queria tirar umas dúvidas. Eram principalmente sobre como favorecer o parto. Ela perguntou literalmente: "tem mais alguma coisa que eu possa  fazer para ajudar a nascer"? – como usar a bola, as massagens que o Sandro poderia fazer, o jeito de apertar as laterais dos quadris durante as contrações... se bem me lembro essa foi a técnica com a qual ela mais se adaptou... E logo depois do término do exame ela voltou a caminhar no corredor, dando a volta completa na maternidade. Fui junto com eles,  e eu e o Sandro acabamos conversando um pouco... aí ela pediu para entrar no quarto, e lá dentro me pediu desculpas por ter me chamado, mas queria só tirar aquelas dúvidas e agora preferia ficar sozinha com o marido... disse que a nossa conversa a tinha irritado um pouco... (eu ADORO mulheres que ficam bravas no TP, já falei né?). 

Conversamos mais um pouco e chegamos a um acordo: eles foram dar mais uma volta e eu fiquei no quarto, assistindo televisão. Quando voltaram tinham resolvido aproveitar a minha presença para o Sandro dar uma corridinha até em casa, tomar um banho, jantar e voltar. E depois eu iria embora. Então ele foi, em pouco tempo voltou, contou que tinha até jogado uma água na garagem que estava cheia de cinzas de queimada de cana... tinha comprado umas coisinhas pra eles comerem na maternidade,  e tinha comprado pra mim também. Comemos, e eu pensei... nem vou precisar ir a algum lugar para comer, então eu vou falar que estou indo embora mas na verdade eu vou só ali na praça ficar olhando o movimento...



Mas ela já estava mais inquieta, debruçava na cama quando vinham as contrações, balançava o corpo e entoava um mantra que era assim: “ai amor, ai amor, ai amor... ai amoooooooor, tá doendo!”

E o Sandro respondia: “eu sei amor, eu sei que tá doendo, mas era essa dor que nós ficamos esperando começar, era essa dor que a gente queria que viesse... a Isabela vai chegar”.

Repetiram isso vááááárias vezes, e eu pensava: que pena que não quiseram fotos nem filmes! Isso tá tão lindo!

Valéria então disse que estava começando a sentir vontade de fazer força. Dali a pouco Dr. Rogério apareceu, pediu para dar uma olhada, ela sentou-se na banqueta de parto, e ele fez o exame: 9 cm, bebê um pouco alta. Ainda ia demorar um pouco. Ele sugeriu: “porque vc não fica um pouco embaixo do chuveiro, pode ficar de cócoras durante as contrações”... Veio mais uma contração e a bolsa rompeu. Quando passou ele pediu: “posso avaliar de novo”? E ela respondeu: Pode! Ele disse que tinha baixado um pouco, ainda tinha um rebordo. Reforçou a sugestão que ela fosse pro chuveiro e ela respondeu: “eu tenho mesmo que sair daqui”? Ele respondeu: “não, pode ficar aí se quiser”... E saiu. Todo mundo da enfermagem tb saiu, ficamos só eu e o Sandro com ela, e eu estava apoiando as costas dela. Começou outra contração, e ela disse: "tá nascendo"!

O Sandro olhou e disse: Vânia, tá nascendo! Eu olhei e disse prá ele, que estava mais próximo da porta: chama alguém da enfermagem. Ele abriu a porta, o Dr. Rogério estava bem próximo, ele disse: “Dr. ESTÁ NASCENDO!”,  então o Dr Rogério veio e só teve tempo de colocar uma luva. Eu estava olhando e falei bem baixinho: - Rogério, a neném vai cair! e ele ainda respondeu: “não cai não”! E quando olhou só teve tempo de esticar a mão e pegar a bebê!

É como eu tinha dito: pensa num parto rápido!

A bebê nasceu com placenta e tudo, e a placenta fez um barulhão de PLOFT! quando caiu no chão. Lembro do Dr Rogério afastando os pés do sangue enquanto esticava a bebê para a Valéria pegar, e logo jogaram um pano no chão para ele poder pisar em cima. Alguém perguntou se podia acender a luz, Dr Rogério e Valéria responderam NÃO! Depois eu soube que a moça da enfermagem queria ver bem o tônus muscular e a cor da bebê, porquê a pediatra não estava presente e perguntaria.

Valéria disse: - eu quero cortar o cordão. E o Dr. Rogério respondeu: “ eu já cortei, quando sai a placenta precisa cortar rápido”... (senão o batimento cardíaco do bebê faz com que ele passe a perder sangue pelo cordão).



Rapidamente o quarto foi limpo, a pediatra chegou, calma, rindo, dizendo que os partos da Valéria são sempre com um toque de surpresa. E também contou que de todos os sustos que já presenciou nas salas de parto, o do primeiro filho da Valéria tinha sido o pior.

OK, mas porque a bebê nasceu tão rápido? A dilatação estava em 9 e a bebê estava alta, e com duas contrações ela nasceu! Com placenta e tudo! Não posso jurar, não sou obstetra nem parteira, mas fiquei com a impressão de que a placenta descolou prematuramente. E como a Valéria não estava deitada, o que na minha opinião é uma das piores coisas que o atendimento tradicional faz: mantê-las deitadas e em jejum... como ela não estava deitada o peso da placenta mais o reflexo de contração do útero graças ao desprendimento da placenta fizeram a bebê nascer em menos de dois minutos. Se a Valéria estivesse deitada o resultado poderia ter sido um pouco diferente. Mas Graças às mulheres questionadoras desta cidade, agora temos cada vez mais médicos atendendo segundo as recomendações da OMS – onde se pode ler: “estimular posições não supinas durante o trabalho de parto, dar liberdade de movimento e de posição, e desencorajar a posição de litotomia durante o parto”.  O respeito a essas recomendações pode ter feito toda a diferença. 

Logo estava tudo arrumado, o casal sorridente, fui embora com aquela sensação já conhecida de “esse mundo está cada vez melhor”. Eu adoro a vida de doula!

Valéria e Sandro, parabéns! É como eu disse para a Valéria: eu já tinha visto maridos participativos, mas igual ao Sandro nunca vi. E vocês dois cantando aquele mantra durante a última hora do trabalho do parto, foi muito lindo!

Isabela, seja bem vinda! Que sua vida seja cheia de luz e cheia de surpresas boas, como no dia do seu nascimento.
Um grande beijo!
Vânia Doula.






segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Carolina e Ana Paula – Nina


Essa doulagem foi tão linda, tão perfeita, tão amorosa, tão tudo... que fico emocionada começando a escrever. Sinto um quentinho no coração, meus olhos estão brilhando, tenho certeza! Sabem aquela pergunta: “você quer com emoção ou sem emoção”? Essa foi com muita emoção!



Então lá vai:


Carolina me escreveu fazendo perguntas sobre doulagem, preparação, grupo de apoio... um dia Ana Paula foi à reunião do grupo e falou comigo no final. Disse que a Carol tinha ido numa reunião anterior mas não tinha conseguido falar comigo, e neste dia acho que ela estava gripada... então a Ana foi sozinha. 

Conversamos, falamos sobre a oficina de parto, elas se inscreveram e compareceram pontualmente... bem no dia em que atrasamos pra caramba o começo da oficina porque não achávamos as caixinhas de som... enfim, o oficina foi super legal e no final combinamos um dia para eu ir à casa delas. Em todas as conversas e trocas de e-mails eu tinha deixado claro que doular paciente do SUS para mim era um problemão... mas conversa vai, conversa vem, falei que doularia até a porta da maternidade... ou melhor, um quarteirão antes. Na esquina eu desceria do carro e elas seguiriam caminho sem mim. Elas toparam esse esquema, então começamos a preparação.

Assistimos os filmes, conversamos bastante, eu adorava ir à casa delas... ah, tenho que contar isso: no primeiro dia em que eu fui até lá o Raul foi me levar... (aliás, ele foi me levar todas as vezes), e ficamos completamente perdidos porque ele quis pegar um atalho por trás da rodoviária... e chegou uma hora que eu não fazia a menor idéia de onde estávamos... então ele fez uma curva, freou bruscamente e disse: “é aqui”! Eu comecei a rir e não parava mais, assim, de pura bobeira... de completamente perdidos a completamente localizados, a diferença foi só uma esquina. Pois é!

Entrei na casa delas rindo muito, e felizes foram todas as nossas reuniões. Quando já estava perto do final da gestação, Carolina e Ana Paula foram conhecer a maternidade, em uma tarde que a enfermagem dedica à recepção das futuras mamães que estão fazendo o pré-natal pelo SUS, para que conheçam as instalações, etc. Sabem quantas pessoas compareceram? Duas: Carolina e Ana Paula. Mas mesmo assim a enfermeira chefe as recebeu, falou sobre parto, elas perguntaram sobre o uso da banqueta de parto e da bola de fisioterapia que a maternidade possui e que elas haviam visto no site...

A enfermeira ficou feliz delas estarem bem preparadas e disse que não haveria problemas em utilizar esses recursos.

Quando elas me contaram, super elogiaram o atendimento que receberam, e estavam muito confiantes. Eu permanecia reticente. Já tinha sido confiante antes, e minha confiança foi arrasada pelo médico plantonista que fez questão de marcar território... De qualquer forma eu queria muito que essa história fosse diferente. Trabalhei muito para isso. E no fim fiquei com tanto medo de errar e fazê-las ir muito cedo para a maternidade (já aconteceu duas vezes comigo de achar que a dilatação estava avançada e estava com um ou dois dedos só!), que acabei contratando a Jamile por minha conta, para ir verificar a dilatação antes da transferência para a maternidade. Só que... Jamile avisou que iria a um congresso durante o período em que Nina poderia nascer.

Na ultima reunião de preparação para o parto eu conheci o pai da Nina. Ele tinha ido levar alguma coisa, não me lembro se era o berço ou o carrinho... Cumprimentamo-nos e ele logo foi embora.

Carolina passou muitas noites com contrações irregulares, mas suficientemente fortes para não deixá-la dormir. Independentemente das contrações, ela também sentia muito desconforto na lombar. Chegou a um ponto de exaustão em que ela até chorou porque precisava tanto dormir... mas as contrações só davam trégua durante o dia. Até que chegou a noite em que elas ficaram mais fortes e foram ficando mais próximas. Nina tinha resolvido nascer!

Ana Paula me ligou às seis e vinte da manhã. E disse assim:

-“Oi! Eu estava com dó de te acordar... Nós ficamos esperando o dia amanhecer pra te ligar”...
Cheguei lá às 7h30. Raul desejou boa sorte e foi embora. Entramos.
Encontrei Carolina andando, com expressão cansada, contando como tinha sido a noite. Tinha sido Agitada!

Naquele dia a Carolina tinha marcado um café da manhã com a mãe dela. Ficamos durante algum tempo conversando e pensando no que dizer... ela não queria que a mãe viesse ficar junto, nem que avisasse mais ninguém. Queria privacidade. (Certíssima!)

Daí a pouco ela pegou o celular, ligou para a mãe, avisou que não iria porque já estava com contrações... e falou bem firme: “não avise mais ninguém, eu não quero que ninguém venha aqui, a casa é pequena e eu quero ter liberdade... eu vou desligar os telefones, e depois que nascer eu aviso. Beijo mãe! Não se preocupe, vai dar tudo certo”.

Ah, se todas as grávidas fossem capazes de romper o cordão umbilical com suas mães... se tivessem a coragem de fazer o que a Carol fez... boa parte dos problemas durante o parto seriam sanados! E por mais que a gente avise durante as reuniões do GAPN que são raríssimas as mães que não atrapalham, vira e mexe acontece de novo e temos que lidar com a mãe da parturiente com cara de “você está fazendo minha filhinha sofrer”! rsrsrsrsr

Não foi o caso da mãe da Carol. E o que a Carol disse ela fez mesmo: todos os telefones foram desligados, e ninguém apareceu. Sua mãe a respeitou. Ah, se todas as mães fossem assim...

Ana Paula saiu para ir avisar que faltaria ao dia de trabalho, tinha que assinar alguma coisa... (o local de trabalho era bem perto de casa). E na volta trouxe pão e fizemos um café.

Então, as contrações foram ficando mais fortes, mais próximas e mais duradouras... lançamos mão da bola de fisioterapia sobre a cama, para que ela pudesse debruçar-se e descansar um pouco... bolsa de água quente nas costas, massagem com gel de arnica... e banheira enchendo dentro do box. Água esquentando no fogão... e eu pendurada no telefone tentando saber quem era o/a plantonista no SUS. E mais uma vez não demos sorte...

Às 11 da manhã Carolina entrou na banheira. Relaxou, tirou alguns cochilos nos intervalos... de vez em quando eu jogava água quente no canto da banheira. Mesmo com o chuveiro ligado estava um dia um tanto frio e a água precisa ficar quentinha.

Elas tinham feito um plano de parto, que levariam para a maternidade e entregariam para quem fosse atendê-las. Neste plano de parto estava escrito várias vezes: "avisar a doula quando... contar com a doula para... ficar com a doula até que"... Passei tudo a limpo e tirei a doula do plano. Risos... se eu não iria para a maternidade por suspeita de que a minha presença não só não seria bem vinda como poderia fazer com que o médico resolvesse marcar território (tipo: “aqui quem manda sou eu” ou “doulas deveriam trabalhar no circo”...), mesmo não tendo meu nome no plano, a simples palavra “doula” poderia fazer diferença no atendimento. Então, a toque de caixa, passei tudo a limpo. O plano de parto que elas levaram estavam inteirinho com a minha letra, mas não mencionava as temidas doulas... rsrsrsr

Carolina começou a sentir os puxos (vontade de fazer força) perto de meio-dia e meia. O plantonista mudaria às 13h00... Jamile estava mesmo viajando, então não tínhamos como verificar a dilatação em casa. Era preciso esperar mais um pouco.

Neste ponto o plano era chamar um táxi ou o resgate se sentíssemos que não daria tempo do táxi chegar...  E nessa hora minha confiança no plano começou a falhar. Fiquei pensando num motorista de táxi desesperado pela possibilidade do bebê nascer antes de chegarmos à maternidade... ou ficando bravo porque o banco ficou sujo de sangue... ele teria calma suficiente para parar durante uma contração mais forte e esperar passar? Eu duvidava... pararia para eu descer uma esquina antes? Eu duvidava... então o jeito era chamar o resgate... fariam ela se deitar com a barriga pra cima e passariam aquelas correias que prendem o paciente à maca para poderem acelerar sem risco dela cair? Talvez... eu nunca vi parturiente sendo atendida pelo resgate, não faço idéia se a prendem na maca ou deixam ela ir sentada... e a sirene ligada? Péssima idéia para quem precisa se manter relaxada... chegar na maternidade de resgate já atrai a atenção do quarteirão inteiro, e seria em um horário de visita... putz!


O QUE EU FAÇO AGORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA??????


Não tem jeito... alguém vai ter que ajudar! Liguei para a minha super irmã ativista, Andréia.
- Déia, não vai dar certo ir de táxi ou de resgate... vc pode vir para levá-las até a maternidade?
- “Claro! Só que... o pneu da moto furou, então o Raul foi levar o Felipe na escola com o carro... quando ele chegar eu levo a Laura e depois vou até aí... dá pra esperar”?

Vai ter que dar!

Meia hora depois liguei pra Andréia... ela atendeu e disse:
- “Já estou aqui na rua, pode sair que só falta achar o número”.

Ana Paula e eu ajudamos a Carolina sair da banheira, secar-se, vestir-se, pegamos as malas e bolsas... e fomos para a frente do prédio. Entre a porta do apartamento e a porta do prédio tinha uns dez/doze metros, e Carol parou duas vezes para esperar a contração passar. Mais uma vez antes de entrar no carro. Elas foram no banco de trás e eu no banco da frente, Andréia dirigindo com toda a calma, sempre atenta aos lugares onde poderia estacionar se a próxima contração começasse. Acho que paramos umas cinco vezes no trajeto até a maternidade, e quando faltava só dar a volta no quarteirão Andréia parou para eu descer, Carol olhou pra mim e disse: “Vânia eu não vou aguentar”... Olhei bem nos olhos dela e respondi: “vai sim linda, você está muito bem e assim que você puder descer do carro vai ficar mais fácil, vai melhorar já já... boa sorte queridas, me liguem quando nascer”...

Desci e Andréia acelerou para aproveitar o intervalo entre as contrações... fui andando bem devagarinho, fazendo minhas orações e fiquei na outra esquina esperando a carona de volta! Rsrsr

Andréia contou que na recepção tinha que fazer a ficha e a recepcionista ficou fazendo mil perguntas... então Andréia perguntou: “ela não pode ser atendida primeiro e fazemos a ficha depois”? A recepcionista então perguntou para a Carolina: “tá doendo muito”? Carolina estava debruçada sobre o balcão, só levantou a mão e fez sinal de positivo. Então elas foram encaminhadas para dentro, mas não antes de esperar a contração passar.

Andréia me pegou na esquina de baixo, eu a levei para trabalhar (na época ela trabalhava em uma empresa na cidade jardim, não muito longe do ap. da Carolina), e eu tinha ficado com a chave delas para poder voltar lá, pegar a banheira e dar uma arrumada em tudo.

Aí... o resto da história eu não sei...
.
.
.
.
.
.
.
.
Brincadeirinha! Depois d’eu voltar pra casa, almoçar, descansar... liguei na maternidade e pedi informações sobre a paciente Carolina...
- “Está aqui sim, já nasceu, está tudo bem”.
- Foi cesárea ou parto normal?
- “Parto normal”.
- Que legaaaaaaaaaaaaaaaaal... Ok, obrigada.

Bom, mas até aí eu já tinha visto antes. Chegar quase nascendo e virar parto frank ainda era uma preocupação. Então, depois que tiveram alta e eu fui visitá-las (inclusive para devolver a chave, que eu esqueci em casa e tive que voltar outro dia... rsrsrsr), e elas contaram os detalhes. Foram atendidas pela enfermeira, o médico não foi chamado embora provelmente tenha sido avisado, a enfermeira (minha chará) adorou elas terem levado plano de parto e pediu permissão para colocá-lo no mural (!!! Quanta diferença de outra, cerca de dois anos antes, que ficou espantada e disse: “ué! Paciente agora tem vontade?!!!).

O parto foi sem transferência para o centro cirúrgico, na banqueta de parto e sem episiotomia. Carolina deu uns bons gritos e ninguém a censurou em nenhum momento, e Nina foi colocada em seu colo assim que nasceu. O cordão não foi cortado imediatamente, foi cortado pela Ana Paula, e a amamentação foi estimulada imediatamente... enfim, um parto com o atendimento perfeito. Nina nasceu uma hora depois que elas deram entrada na maternidade.


Depois que estavam no quarto o médico plantonista passou e disse com jeito de censura:
- “Desse jeito o próximo nasce em casa”!
E Carolina respondeu:
- “Se eu puder pagar, sim, se não vai ter que ser aqui mesmo”!
Tóin!

Mais tarde ela teve problemas na amamentação e na visita eu também tentei ensiná-la a ordenhar para aliviar as mamas, o que deu resultado na hora, mas não durou muito e sozinha ela tinha dificuldades. Quando foi relatar o parto lá no GAPN contou que o parto foi muito legal, mas a amamentação não foi. E recomendou fortemente que a preparação para a amamentação fosse intensificada. Nessa parte o filme “Amamentação sem mistérios” lançado logo depois foi importantíssimo para atendermos esta demanda.




http://www.maternidadeativa.com.br/aleitamento/index.html








Ana Paula contou também que o pediatra que atendia a Nina no Posto de Saúde as chamou para uma conversa e perguntou se elas não tinham pensando no preconceito que a Nina sofreria na escola quando assumiram o relacionamento. Responderam educadamente com outra pergunta: "o senhor faz o mesmo questionamento para os casais pertencentes a outras minorias? Quer uma lista de motivos pelos quais as crianças podem ser vitimas de preconceito na escola? Para quantos destes o senhor se achou no direito de dar conselhos"?



Mudaram de médico. Ainda bem que existia esta opção.

Agora, pouco mais de um ano depois, Ana Paula está fazendo um estágio na Alemanha, Carolina já voltou a frequentar as aulas regulares da faculdade e tem contado com a ajuda preciosa do pai da Nina. Paternidade consciente, graçasaDeus!

A mãe da Carolina não ficou magoada ou ofendida por não poder acompanhar o parto da filha, e depois ate ajudou a pagar pela doulagem! E não se cansa de curtir a netinha linda!

Carol e Ana Paula, muitíssimo obrigada por terem me convidado. A história de vocês me devolveu a fé que o serviço público pode ser muito bom. Quem depende dele precisa estar muito bem informado sobre seus direitos, e ainda dependemos da sorte para pegar uma excelente enfermeira de plantão... mas sim, pode ser muito bom!



Eu adorei fazer parte desta história. Um graaaaande beijo, amo vocês!
Nina, bem vinda a este lindo mundo. Você merece tuuuuudo de bom!

Beijos,

Vânia Doula.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pais desertores, crianças na lixeira!

Estou divulgando este texto pois acho que na véspera do dia dos pais, ele nos dá uma excelente oportunidade de refletirmos sobre a paternidade responsável!

Pais desertores, crianças na lixeira!

Ida Peréa
Médica, mulher, mãe , avó, cidadã...


Gostaria de iniciar esta conversa assim: “hoje ao ligar a televisão para assistir ao noticiário matinal fui surpreendida com a terrível noticia que uma mulher deixou seu filho em uma lixeira”. Seria uma maneira bonita e até eloqüente de iniciar. Acontece que não seria verdade, pois fato semelhante já não me surpreende embora me deixe consternada e apreensiva, dada a freqüência com que ocorre. E desta vez a própria mãe (que deixou a criança na lixeira) ligou para a polícia, certamente preocupada com seu bebê. 

Em seu depoimento á policia devidamente gravado pelo meio de comunicação, a mãe confessou que deixou seu filho na lixeira por que, segundo ela, não tinha condições de criá-lo, mas ligou para a polícia e ficou aguardando para ter certeza que a criança ficaria bem.

Em seguida a matéria mostrou entrevista com trabalhadoras do hospital para onde foram levados mãe e filho e como era de se esperar, todas fizeram mais ou menos a mesma fala; “como uma MÃE tem coragem de abandonar seu filho?”

Mas como já disse, este não é um caso isolado muito menos raro e muito menos novo como mostram as manchetes:
“Desprezo materno: Mulher abandona menino no Rio de Janeiro e o manda procurar outra mãe” Veja 11 de outubro 2000
“Mulher abandona filho recém-nascido em banheiro de oficina em Belo Horizonte” Publicada em 20/09/2009 10:45 Globo Minas
“Mulher que abandonou o bebê no lixo, tem ao todo dez filhos” Publicada em 27 de Abril de 2011 às 10h55  BRA notícias
“Mulher é presa depois de abandonar bebê de 3 meses” Seg, 18 de Abril de 2011 13:05 Manchete on line

Em uma rápida busca na internet qualquer um encontrará inúmeras histórias de mulheres que descartam seus filho(a)s em lixeiras, banheiros, lagoas, etc e certamente nem tomamos conhecimento daquelas que os abandonam nas florestas, nos rios (os filhos de boto), porque lá de tão ermo, a imprensa nem chega...

Mas nos casos que viraram notícia e que tive oportunidade de assistir, vi com tristeza rostos alguns endurecidos outros transtornados outros assustados e todos muito, muito solitários. Olhares que não buscavam nada e nem ninguém, provavelmente porque não tinham a quem buscar. Ninguém quer ser parte de uma história tão abominável. Para uma sociedade que professa o cristianismo mariano que tem em Maria Mãe, o modelo feminino a ser buscado com forma de perfeição é difícil evitar o sentimento de repulsa por um ser humano que tem coragem de abandonar de forma tão cruel sua cria, sangue do seu sangue, carne da sua carne. Há quem até questione a humanidade destas mulheres.

Mas sabe o me chama atenção? Jamais vi qualquer manchete assim: “Desprezo paterno: homem abandona filho...” ou “homem é preso após abandonar bebê na barriga da mãe”, ou após o nascimento ou a qualquer momento da vida... Como será que nós reagiríamos diante de tais notícias? Numa sociedade machista e patriarcal onde a masculinidade pressupõe apenas a direitos e nenhum dever, seria realmente espantoso...

Ao longo da história deste país, aos homens foi dado o direito de gerar filhos sem a menor preocupação ou responsabilidade e de abandoná-los sem o menor remorso ou receio de punição.

O estabelecimento da filiação paterna, na legislação e na cultura patriarcal brasileira está fortemente vinculado à vontade e ao arbítrio do homem-pai e está  efetivamente garantido apenas para as crianças nascidas dentro da família tradicional.

Os números de NÃO reconhecimento paternos no Brasil, que chegam à espantosa cifra de 30% em alguns municípios, constituem uma perversa modalidade de machismo que impacta negativamente a vida das crianças e das mulheres que sozinhas, sem a solidariedade do companheiro, arcam com todos os encargos financeiros e sociais assumindo inteira responsabilidade pelo futuro da prole. O quadro torna-se particularmente devastador quando esta mãe (mulher/menina) é adolescente com baixa escolaridade constituindo um circulo de total vulnerabilidade para todos os membros daquele grupo familiar

Fico imaginando se somos mesmo um estado democrático... Que democracia é esta onde 30% dos cidadãos e cidadãs já nascem capengas de um direito elementar que é a identidade biológica?

E a proverbial e internacionalmente famosa solidariedade do povo brasileiro? Só fachada! Como posso acreditar na solidariedade de homens que abandonam suas mulheres e seus próprios filhos?

Espero viver o suficiente para ver os homens do meu país transformados em cidadãos realmente solidários; homens que ao praticar sexo com uma mulher, pensem que aquela relação pode gerar uma criança e se ele não tem intenção de assumi-la deve se proteger; homens que ao gerar uma criança assumam com ela, com a mulher que engravidou e consigo próprio um compromisso de solidariedade com o sustento, com a educação e com futuro daquela criança.

Enquanto existirem homens desertores teremos crianças na lixeira.

Ida Perea.

Contato:

idaperea@gmail.com